O encontro com o leproso

Foi a partir do encontro com o leproso que mudou a vida de Francisco.


Hoje falamos e conhecemos São Francisco de Assis. É importante nos darmos conta que ele não nasceu santo, assim como ninguém nasce santo. Nasceu numa família rica, abastada, focada no sucesso social e econômico, que lhe seriam possíveis, em virtude de sua inserção privilegiada na sociedade. Francisco, contudo, não queria o ideal da nobreza, nem da burguesia, duas possibilidades que lhe eram oferecidas, em conformidade com a contextualização de sua família na sociedade da época. Além disso, rejeitar a essas possibilidades incluía também a ruptura com o pai, que não admitia a postura do filho. Este, por consequência, passou a sentir-se verdadeiramente desnorteado e desprotegido. Já não contava mais com o amparo da família, nem com a acolhida da sociedade, porque nada do que aí lhe era oferecido o satisfazia.

Isso, porém, não significa que Francisco já soubesse o que fazer. Perdeu, de repente, todas as referências históricas e pessoais. Ficou, de certa forma, sem chão. Sem conseguir se situar minimamente, não conseguia vislumbrar nenhum caminho, que lhe desse alguma perspectiva e sentido para a vida. Foi buscando, ou melhor, tateando sem rumo, até um dia se encontrar com um leproso. A experiência deste encontro foi decisiva e mudou sua vida.

Em que residiria a força transformadora deste encontro? Certamente há vários aspectos. Destaco, contudo, dois. Em primeiro lugar, na qualidade de empobrecido e excluído, Francisco se reconhece, identifica com a miséria dos leprosos e vagabundos, enfim, com todos os desvalidos da sociedade. Com eles sente-se “em casa”, amadurece psicologicamente e descobre um caminho para a sua vida. Em segundo lugar, o desfecho dessa virada em sua vida se dá mesmo diante do crucifixo de São Damião e na medida em que se acha no Evangelho onde Jesus envia os Apóstolos recomendando nada levar pelo caminho. Ou seja, a partir dos miseráveis da sociedade, ele se encontra com Deus que se faz irmão pobre e crucificado.

Por esse caminho, Francisco chega a uma espiritualidade da fraternidade, e não espiritualidade do Pai. Pois, conhece, e nós conhecemos, Deus como irmão, em Jesus de Nazaré. A referência para ele passa a ser Jesus de Nazaré, pobre, humilde e, por fim, crucificado. Será também este o ponto de partida para a organização e a história da vida dos coirmãos que, com ele, vão fazer este caminho da fraternidade.

Nessas poucas considerações sobre a vida e a história de Francisco confirma-se uma verdade fundamental de nossa fé, que o Deus no qual acreditamos é um Deus encarnado. – “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. É um Deus humilde, que desce e se rebaixa ao nível do humano, e o humano em sua situação mais pobre e sofrida, a ponto de morrer numa cruz. É um Deus encarnado na vida concreta de Jesus de Nazaré, e sua encarnação estende-se e se visibiliza em todos os pobres e humildes da terra. Com isso concluímos, que toda espiritualidade cristã surge e se alimenta da fé e da adesão a Jesus de Nazaré, que encontramos vivo e atualizado nos “leprosos” de todos os tempos.


Autor: Pe. Aloísio Ruedell

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