Ver, solidarizar-se e cuidar


A vida de todas as criaturas é preciosa. No entanto, sempre tão vulnerável, frágil. Ameaças, riscos e perigos estão a rondar a vida. Ante isso, podem ocorrer dois modos de olhar: o da indiferença (não se importa com a vida; outras questões parecem mais importantes!); o da compaixão (não de comiseração apenas ou de dó!), que gera uma disposição de “permanecer com”, desperta atitude de ‘cuidar da’ e se torna solidário.

A reflexão sobre a “vida: dom e compromisso”, motivada pela campanha da fraternidade tem como principal referencial bíblico o texto da parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37). O jeito de ser apresentada, o modo como se desenrola a narrativa são significativas. Eis alguns aspectos relevantes para a meditação e discernimento.


Uma pessoa ferida...


O texto propõe o tema: uma pessoa, vítima de assaltantes, é deixada ferida, quase morta, à beira da estrada. Mostra que sofreu a agressão de quem tinha por ela um olhar interesseiro. Quem agrediu, agiu motivado pela intenção (O que é meu é só meu. O que é seu deve ser meu. Se não me der, lhe tomo ‘à força’!). Esse jeito de ver a vida, por certo, não favorece o bem viver de todas as pessoas.

Diante da pessoa machucada passam outros dois transeuntes (o sacerdote e o levita) e agem com indiferença. A veem, se distanciam, passam ao largo, não se envolvem com ela, não se interessam por sua condição. Isso não lhes diz respeito. Sua reação ante quem jaz em dor à beira da estrada é movida pela noção (O que é meu é meu. O que é seu é seu. Eu estou na boa. Você está na pior; “dane-se”!). Seu olhar é de indiferença: ‘não é da minha conta’; não me diz respeito; não tenho nada com isso; não me interessa! Seguem seu caminho, sem a atender.

E o texto segue: “um samaritano que passava (em viagem!), ao ver o homem, sentiu compaixão”. Tal força (a compaixão!) o faz se aproximar da pessoa ferida, gastar tempo, mudar (em parte) sua viagem. Lhe ‘atende’ na imediata situação e o leva para lhe oferecer melhores cuidados (na pensão!). Sua atitude revela um projeto de vida (O que é meu é realmente meu quando pode se tornar nosso!). Ele atende a pessoa ferida não por ser alguém conhecido seu; o samaritano se faz próximo dele. O próximo é toda pessoa em situação de necessidade; tal modo de ver é típico de quem vive a compaixão.


Compadecer-se...


O olhar e a atitude da compaixão, adequada para valorizar a vida ferida, se revelam também como outros modos de ser, conforme sugerem os textos bíblicos. Oportuno se faz apresentar algumas dessas forças.

A tradição bíblica lembra o amor. Ele deve ser maior que a própria justiça. O texto base da ‘Campanha’ anota: “o amor condiciona a compreensão de justiça. A justiça serve à caridade. O amor-caridade é a forma mais plena de justiça” (TB,99). Outra dimensão da compaixão é a própria justiça, marcada pela misericórdia. Conforme o texto: “a justa misericórdia, ou a misericordiosa justiça de Deus, ultrapassa qualquer situação para ver a pessoa que ali está e dela cuidar, principalmente quando não merece” (TB,104). Cuidar da vida, ser justo, é, acima de tudo, ter um coração misericordioso.

Um aspecto ressaltado pela compaixão é a dignidade da pessoa humana. O justo e adequado reconhecimento dela faz ver a outra pessoa como próximo a ser cuidado. Pois, a dignidade humana é o fundamento da justiça, muito mais que o mérito, tantas vezes apregoado como razão principal.

Por certo, uma face muito humana da compaixão é a ternura. Ela é capaz de reacender a chama de uma vida. Viver a ternura, lembra o texto: “é fazer-se presente onde ninguém deseja estar ou queira ficar” (TB,136). Deixar-se mover, agir marcado pela ternura transforma as atitudes humanas; a força do afeto, mais que a razão, configura o cuidado zeloso pela vida ferida, machucada, jogada “quase morta” à beira das estradas do mundo. Que “forças” movem tuas disposições de cuidar da vida das criaturas todas?

Pe. Carlos José Griebeler

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