Páscoa: caminho de Ressurreição e de Vida Nova

Páscoa é vida, é passagem, é libertação. Para esse mês em que celebramos a vitória de Jesus sobre a morte, relembramos e partilhamos a entrevista feita pela equipe do ELO Diocesano com nosso Bispo Emérito, Dom José Clemente Weber. Dom Clemente nos ajuda a refletir sobre o significado a Páscoa para a Igreja e a sociedade. Confira:


Elo Diocesano: Dom Clemente, a partir de sua experiência de padre e bispo, qual o principal sentido que o senhor atribui a Páscoa?


Dom Clemente: Ao longo dos anos a gente evolui. Minha compreensão do sentido da Páscoa foi adquirindo com o tempo novos matizes. Atualmente minha visão da Páscoa se inspira em duas passagens do Evangelho de João, ambas de contexto pascal. A primeira: “Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). A segunda: “Vós agora sentis tristeza. Mas eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,22).

Em que consiste a alegria de Jesus? Em “ir para o Pai”, em “estar na casa do Pai”, isto é, viver sempre em plena comunhão com o Pai, na intimidade do seu amor. Ele fala como ser humano e deseja que sua humanidade, unida ao Verbo, entre também na mesma relação de amor. Para isso é preciso “passar” pela morte. A morte é a “passagem” necessária para a ressurreição, a vida plena, a alegria completa. Albert Énard, no livro “Alegra-te, Maria” exprime bem essa “Páscoa”: “No momento em que Jesus Cristo, pregado na cruz no paroxismo de seu sofrimento, clama em alta voz “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, a união com o Pai se estreita ao máximo. Nesse silêncio, que aparenta ausência, o Pai está mais presente do que nunca, no centro da provação do Filho. A alegria pascal é a alegria de Deus mesmo que se comunica ao homem. Quando Jesus inclina a cabeça e entrega o espírito, começa a surgir para o mundo a alegria pascal: o lado ferido pela lança é sinal dessa fonte que não se estancará... É uma alegria que se coloca além do sofrimento e da alegria comum, porque a simples alegria humana é a posse de um bem: mas a Alegria é aquela que só Jesus Cristo pode dar, que supera a posse de todos os bens: a alegria pascal é a união com Deus, é a alegria de Deus” (pág. 103).

Em relação a nós, que experimentamos muitas vezes a vida como “meia morte”, Jesus não cessa de viver como ressuscitado, que glorifica nossa cruz de cada dia, quando a abraçamos como Jesus, com seu mesmo amor, transformando-a em Bênção, Ressurreição, Alegria.


Elo Diocesano: Como bispo emérito de nossa Diocese, o que diria as nossas comunidades em relação às celebrações da Páscoa?


Dom Clemente: A preparação para a Páscoa é de extrema importância. O programa da quaresma foi o próprio Jesus quem no-lo propôs: oração, esmola, jejum. Quem procura praticar isso, certamente viverá a alegria da Páscoa. O tripé dos “exercícios quaresmais” nos torna mais humanos porque nos faz acolher o projeto do Reino: cultivar a relação com Deus, que nos liberta de nossas muitas ilusões e nos introduz no dinamismo pascal realista do seu amor; entrar em relação de maior fraternidade com o próximo para formar em Cristo uma nova humanidade, com justiça, paz e maior unidade; aperfeiçoar a própria liberdade, sabendo renunciar (jejuar) a tantas ataduras que nos escravizam.


Elo Diocesano: Que sinais de ressurreição o senhor percebe na caminhada da Igreja e da sociedade hoje?


Dom Clemente: Estamos vivendo na Igreja um período de baixa tensão. Um primeiro sinal de ressurreição é o humilde reconhecimento de grande parte de seus m embros de que a Igreja, a par da santidade que Deus generosamente lhe confere, é também pecadora. O saber sofrer as humilhações que lhe advêm por condutas indignas é uma penitência que purifica, regenera, ressuscita. Outro sinal é o desejo e a decisão de muitos leigos de participarem mais ativamente da Igreja, buscando formação e novas formas de evangelização; na sociedade, percebemos um despertar crescente de indignação contra todos os desmandos e violências cometidos contra as pessoas, o bem comum, a justiça e a paz, a nível mundial, nacional e local; ainda a comovedora solidariedade em acolher estrangeiros que buscam refúgio por muitos motivos, em vários pontos do país e também no exterior. Também a solidariedade em socorrer flagelados em calamidades naturais.


Elo Diocesano: A Igreja do Brasil, através do documento 107, “Iniciação a Vida Cristã”, incentiva as Dioceses a assumir esta nova metodologia catequética. O que o tempo pascal pode proporcionar para este processo de iniciação?


Dom Clemente: Já vai para quase seis anos que estou menos intensamente mergulhado nas lides pastorais da Igreja. Sei mais ou menos o que está acontecendo em Montenegro e Porto Alegre. Entendo que a catequese deve ajudar a inserir os catequizandos na vida de fé da comunidade. Os catequizandos, porém, não podem ser apenas as crianças, os adolescentes e os jovens, seus pais e padrinhos. A “Iniciação” proposta é boa. A catequese, entretanto, não pode se restringir a ela. Precisa tentar atingir, quanto possível, todas as faixas etárias e categorias de pessoas. O tempo pascal é tempo favorável para ir ao encontro de mais gente, sair de casa e convidar outros a participar de algum grupo de Igreja, que os faça progredir espiritualmente e assumir sua missão de cristãos. Sinto, em geral, pouco empenho concreto em fazer perseverar os grupos existentes e ampliá-los (grupos de oração, reflexão, movimentos, círculos bíblicos, ação caritativa...). A novena da Páscoa é uma excelente oportunidade.


Elo Diocesano: Qual a mensagem que o senhor gostaria de deixar para sua Diocese de Santo Ângelo?


Dom Clemente: Além de desejar a todos votos calorosos de FELIZ PÁSCOA, acrescento aos votos o convite expresso por antigo lema de Campanha da Fraternidade, com pequena alteração e algum acréscimo: “Descubra a ALEGRIA de participar da comunidade e de servir onde houver necessidade”.


Entrevista publicada na edição de Abril de 2019 no ELO Diocesano.

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