Homenagem do MAB ao Pe. Eugênio Hartmann

O MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens, preparou uma bonita homenagem ao Padre Eugênio João Hartmann, por ocasião de sua Páscoa. Nos últimos anos Pe. Eugênio vinha se destacando como uma forte liderança de resistência à construção das barragens que afetariam a vida de muitas famílias e comunidades na região costeira do Rio Uruguai. Confira a homenagem:


“Ter companheiros

é como ter vida longa

vida eterna.

É saber que mesmo depois da morte

poderemos permanecer vivos.”


Ontem, uma estrela brilhou mais forte, com a energia de milhões de sóis. Alçou voo para a eternidade dos que lutam a vida inteira a brilhante luz de Padre Eugênio. O companheiro imprescindível, o homem gigante, artista, animador e lutador do povo, defesor ímpar do Rio Uruguai, militante dessa vida, anunciador de sonhos, criador de novidades, trabalhador, brincante Padre Eugênio, nos entregou ontem a missão de nossas vidas: seguir a luta pela libertação do nosso povo, que deu sentido à sua existência.

Em nossos caminhos, há alguns encontros essenciais e, para Padre Eugênio, sabemos que o seu encontro com o coletivo, com a luta do povo, pôs o seu ser em estado de plenitude. Sua incrível energia, a partir daí, seria empregada na construção de um mundo novo, em tornar possível no futuro, as mais altas aspirações de homens e mulheres desse país, que hoje parecem apenas sonhos.

Nesta fogueira de acreditar em utopias, Padre Eugênio sabia queimar-se por inteiro. Entregou-se à tarefa da organização política missionária de forma firme, com total confiança, e pulsando emoção. Ele nos atravessou com suas palavras de força, com seus olhares plenos de significado, com seus gestos completamente verdadeiros, porque jamais teve medo de forjar laços de companheirismo, e valorizava isso, enxergava o outro verdadeiramente, acima de tudo.

Padre Eugênio carregou consigo uma identidade profunda com a luta do povo, dos jovens, das pastorais sociais e a luta dos atingidos por barragens. Para nós do MAB, essa é uma grandiosa honra, porque ele incorporou o que há de melhor em nossa militância. Um militante educador, disposto ao processo dialético de ensinar e aprender que é a construção de uma organização revolucionária e a luta diária.

Um militante construtor, um lutador que, ao falar, dizia as palavras corretas, nos atingia com emoção no coração, e nos fez querer também pertencer ao projeto no qual acreditou tão firmemente. Um comandante, portador de iniciativas, capaz de nos conduzir nos enfrentamentos mais difíceis, e nos alegrar nos momentos de festa, cheio de ternura, ousadia e também dureza, sempre que necessário. Um homem inquieto, questionador, que jamais se conformou com pobres e duros métodos de uma política sem alma. Em vez disso, buscou a poética linguagem, a cultura popular, acreditando que vem do povo a novidade e a capacidade de transformar.

A rebeldia de Padre Eugênio é um atestado de firmeza ideológica, de espírito revolucionário, de amor ao povo brasileiro, e de mística. Ele sabia que não se constrói um mundo novo sem cultivar novos valores, novas relações, baseadas no cuidado, no companheirismo e na solidariedade. Talvez muitos não saibam o que a mística significa. Mas nas palavras de outro poeta é algo “que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” uma vez que sejamos tocados por ela. Padre Eugênio tocou tantas e tantas pessoas com a mística, e assim seguirá.

Lembramos que Padre Eugênio nos ensinou que ter companheiros e companheiras é o laço mais forte que podemos criar. Às vezes, é preciso uma marcha de muitos dias, outras vezes, basta um chimarrão, e algumas poucas vezes, muito especiais, em cultos ecumênicos pelos rios livres, que se juntava para colocar um barco no Rio Uruguai.

Padre Eugênio deixa, sobretudo, uma saudade imensa, que viverá em nós como um farol. A indicar o caminho certo, o abraço companheiro, a compreensão, a humildade, a opção pela luta permanente e incansável.

Sentiremos saudade dos encontros, nos dias 14 de março de muitos e muitos anos a seguir, até que sejamos todos livres. Sentiremos muita saudade em cada encontro de CEB’s, e cada reunião de preparação de culto ecumênicos, em cada festejo de comunidades. E com certeza, sentiremos saudade quando ouvirmos nossas músicas, quando dissermos seu nome, sempre quando se encontrarmos pra celebrar os seus sonhos, que também são nossos.

A saudade será enorme, será bela, potente, vai subir aos céus em seu voo, e chover sobre todos nós. E, temos certeza, nos encontraremos nesse horizonte, no nascer do sol da revolução brasileira. Seremos guardiões e guardiães do seu legado e do seu exemplo, que deixou à militância, e estaremos certos que ele sempre estará conosco.

Agradecemos ao Padre Eugênio por tanto. Por ser exemplo para tantos jovens e para nós atingidos por barragens, temos certeza que também será inspiração de tantos outros que virão.

À família de Padre Eugênio, companheiros e amigos, o MAB expressa solidariedade com grande afeto e admiração. São muitos os legados de Padre Eugênio, mas o maior deles, sem dúvidas, vive na mulher e no homem que nos tornamos.


MAB, 15 de fevereiro de 2021.

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