CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2022: Fala com sabedoria, ensina com amor! - Entrevista Temática

Entrevista concedida por Renato Ferreira Machado – Pedagogo, Doutor em Teologia e coordenador de Pesquisa e Extensão na Faculdade Dom Bosco, ao padre Leonardo Envall Diekmann – Secretário da PASCOM

Confira:


Elo Diocesano: Este ano a Campanha da Fraternidade tem como tema central Fraternidade e Educação. Qual o objetivo da Igreja ao escolher esse tema?


Renato: No texto-base da Campanha da Fraternidade encontramos o seguinte objetivo geral: “Promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”. Este grande objetivo é uma espécie de carta de intenções da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao abordar novamente o tema da educação, que pode ser compreendido a partir de algumas palavras-chave. A primeira é “diálogo”, contrapondo-se às

narrativas polarizadoras que tem vigorado em nossa sociedade nos últimos tempos. Ora, sabemos que a pessoa, para se constituir como tal, necessita estar junto a outras pessoas e com elas dialogar. Estas pessoas, segundo a fé cristã, são aquelas que podemos chamar de “próximos”. Nosso problema hoje é que, ao nos fecharmos em bolhas sociais, acabamos tendo como “próximos” apenas quem pensa conforme nós pensamos, ao mesmo tempo em que passamos a recusar a interlocução de quem pensa diferente. A educação do humano se dá exatamente com os diálogos que estabelecemos na diversidade de visões e posicionamentos, ou seja, no rompimento de nossas bolhas. Outro termo-chave, complementar ao primeiro é “realidade educativa”. A CNBB não está propondo uma Campanha da Fraternidade na qual se idealize ou se romantize a educação. É o contrário. A CF 2022 nos convoca a olharmos com profundidade e seriedade a realidade da educação em nosso país, com todos os seus calvários e com todas as suas páscoas. Depois encontramos “à luz da fé cristã” e “humanismo integral e solidário”, o que nos lembra a presença e atuação da Igreja no campo educacional desde a chegada dos europeus no território brasileiro. Se olharmos para as Missões Jesuíticas, por exemplo, perceberemos o grande projeto pedagógico que ali existia e o quanto este projeto se desenvolveu de forma criativa e crítica às injustiças sofridas pelos povos originários da época. Toda caminhada da Igreja, aliás, sempre foi educativa, pois o anúncio e testemunho do Reino de Deus sempre necessitaram de metodologias que conversassem com a realidade dos diferentes povos e desencadeasse um processo de aprendizagem e transformação. Por fim, não podemos esquecer duas dimensões importantes da relação da Igreja com a educação: de um lado, o grande número de congregações religiosas cujo carisma é voltado à educação e que nos legaram centenárias escolas católicas. De outro lado, todo o engajamento eclesial por uma educação libertadora ocorrido na América Latina, movido pela mística do Vaticano II, Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. Toda a Teologia Latino-Americana se move pedagogicamente, sendo possível reconhecer isso na metodologia das CEBs, nos Círculos Bíblicos e na Pastoral da Educação. Paulo Freire, o maior de nossos educadores, surge exatamente neste contexto, e a partir dele, ele realiza todo seu trabalho.


Elo Diocesano: Costumeiramente ouvimos que a educação brasileira está em crise. Por onde podemos iniciar uma mudança nesse cenário visando um Brasil melhor?


Renato: Em momentos de crise sempre é necessário voltar às fontes e recontextualizar nossa vocação e missão. A crise na educação brasileira vem de longa data, mas o advento do Corona-vírus parece ter trazido à luz algumas questões que passava desapercebidas. A primeira e mais gritante é a desigualdade social que impede o acesso ao direito fundamental da educação. Vários dados nos mostram números alarmantes de desistência da escola por parte de jovens de ensino médio e de crianças que, por falta de condições materiais, não conseguiram acompanhar as aulas online. Quem são estes jovens e crianças? Os mais pobres! Por que isso ocorreu com eles? Por absoluta falta de políticas públicas inclusivas para a educação. Por isso, é hora de voltar às fontes e nos perguntarmos sobre o que, afinal, significa educação em nosso país. Em ano de eleições, é tempo de estarmos atentos às propostas neste campo e exigirmos, como população, aquilo que é direito de todos: o acesso a uma educação de qualidade a todo cidadão.


Elo Diocesano: Como nossas comunidades podem aplicar a campanha da fraternidade em sua prática pastoral?


Renato: A América Latina é riquíssima em metodologias pedagógico-pastorais, que já deram muitos frutos ao longo do tempo. Volto a insistir, por isso, em revisitar as fontes. Neste caso, seria importante que as comunidades fizessem a memória dos grandes movimentos educacionais nascidos no seio da Igreja. Que possamos revisitar a metodologia das CEBs e dos Círculos Bíblicos. Que possamos reler a história e a memória da Pastoral Escolar em nossa comunidade, lembrando pessoas, projetos, eventos e tudo aquilo que foi constituindo nosso fazer neste momento. Que possamos reler autores e autoras que, surgidos no seio destas comunidades, contribuíram para uma educação mais justa e libertadora em nosso país. A partir desta memória viva, iluminada pelo texto-base da Campanha da Fraternidade 2022, creio que seja possível assumir novamente o papel profético que a educação nos exige para que aconteça o Reino de Deus, a Civilização do Amor.


Elo Diocesano: Que mensagem o senhor deixaria para nossos leitores nesse tempo de quaresma?


Renato: Quero falar, de maneira especial, às professoras e professores que nos leem. Sempre que escuto a profissão docente descrita como “a profissão que prepara outras profissões”, ou ainda, quando assisto na mídia a narrativas que romantizam a absoluta falta de estrutura e dignidade com que trabalham muitas educadoras e educadores, fico profundamente irritado! Nós, professores e professoras, não somos simples “preparadores” de futuros profissionais. Nós somos operadores de um direito fundamental da pessoa, o direito à educação. Em toda a sociedade, somos os únicos profissionais formados e preparados para trabalhar com os processos de ensino e aprendizagem humanas. Não para preparar as pessoas para o mercado, mas para contribuir na formação integral das pessoas. Enquanto a educação for encarada como algo utilitário, como uma simples preparação para o mercado, não haverá transformação alguma. Professoras, professores: não tenham medo de se erguer contra isso! Não tenham medo de reivindicar aquilo que lhes é de direito! Não tenham medo de proclamar que vocês, que nós, temos compromisso com a pessoa, com sua liberdade e dignidade e não com os sistemas econômicos que exploram as pessoas! Enfim, nenhuma reforma educativa é possível fora da escola e sem os professores e as professoras. Não tenham medo de assumir seu protagonismo neste processo.

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