Bíblia: Palavra que desafia e liberta - Entrevista temática com o Prof. Noli Hahn

Todos os meses, a equipe do ELO Diocesano prepara uma entrevista temática na qual convida alguma personalidade para partilhar sua reflexão sobre algum tema específico. Em setembro de 2020, o Prof. Noli Bernando Hahn, Dr. em Ciências da Religião, e Prof. de Bíblia no Instituto Missioneiro de Teologia – IMT, concedeu uma entrevista especial ao Pe. Leonardo Envall Diekmann, refletindo sobre o sentido e a importância da Palavra de Deus na vida do ser humano na atualidade. Em meio a este tempo no qual a Campanha da Fraternidade nos chama ao diálogo e a tolerância resgatamos esta entrevista para você. Confira:


Elo Diocesano: Prof. Noli, nos últimos anos temos acompanhado o avanço de correntes e segmentos extremamente conservadores que apoiam suas teorias e ações em leituras fundamentalistas da Bíblia. Que análise o Sr. faz deste fenômeno?

Prof. Noli: Tivemos, ao longo da história, formações culturais que não integraram as perspectivas da pluralidade, da diversidade, da diferença, da heterogeneidade. Estas quatro palavras são muito importantes quando se procura pensar por que existem segmentos por demais reacionários ou extremamente conservadores. Correntes filosóficas e teorias teológicas foram decisivas para que tivéssemos, na dinamicidade da história, segmentos que se fechavam sob suas verdades e não aceitavam outras formas de vida e outros jeitos de pensar. Tais correntes priorizaram, por demais, palavras, tais como: singularidade, unidade, homogeneidade, conformidade. Tais correntes filosóficas e tais teorias teológicas ajudaram a criar uma mentalidade singular que não aceita o plural; um entendimento de unidade que não aceita diversidade; uma compreensão de homogeneidade que não aceita a heterogeneidade e a diferença. Para mudar esta mentalidade, necessita-se entender que humanidade precisa ser concebida a partir do reconhecimento da diversidade humana e não o contrário. Não se pode ter uma ideia de humanidade “na cabeça” e querer aplicá-la à realidade para que todos se adaptem e se adequem a esta forma de pensar e a este jeito de ser e estar. Mudar este núcleo teórico de conceber que muito antes de sermos uma unidade, somos uma diversidade cultural, é central para não lermos a Bíblia de maneira fundamentalista. Entender que a Bíblia são Palavras de Deus – no plural - que se revelam e se inspiram também a partir das realidades históricas que as pessoas vivem, que são Palavras que brotam e nascem a partir da compreensão de contextos, é fundamental para não ler a Bíblia “ao pé da letra”.


Elo Diocesano: O que precisamos ter em mente para não cair em uma leitura fundamentalista da Escritura?


Prof. Noli: Vou enumerar dois elementos que são centrais, a meu ver, para não se incorrer em leituras fundamentalistas da Bíblia:

a) Não se deve imaginar que o texto bíblico seja um texto inspirado por Deus sem a participação do ser humano. A Bíblia não nos traz uma Palavra “pura” de Deus. Os livros bíblicos foram escritos por pessoas e comunidades também a partir de suas compreensões de vida. Temos, em nossos textos bíblicos, muitos elementos culturais que eram importantes nas culturas dos povos do Antigo Oriente e que, na atualidade, não são mais tão centrais.

b) Necessário, se faz, INTERPRETAR o escrito bíblico. Quem faz uma leitura fundamentalista ou uma leitura “ao pé da letra” do texto bíblico, não interpreta. Interpretar requer, pelo menos, uma atenção a três elementos: primeiro, ler atentamente o que está escrito; segundo, contextualizar o texto no tempo em que foi escrito; terceiro, contextualizar o texto lido para os dias atuais. Desta forma, a Palavra de Deus emerge da interconexão desta tríade: texto literário, a vida da época em que este texto foi escrito e a vida que se dinamiza na atualidade.


Elo Diocesano: Como a Bíblia pode nos despertar para um pensamento mais crítico e consciente sobre sociedade, as relações e necessidades humanas?


Prof. Noli: É muito pobre cultivarmos a ideia de que a Bíblia nos traz textos de mensagens para situações e contextos existenciais e pessoais. A Bíblia, enquanto Palavras de Deus, traz, sim, mensagens existenciais, mas não desconectadas de um PROJETO de vida em sociedade. Quatro palavras resumem o PROJETO: escravidão, libertação, morte, vida. O Antigo Testamento ou o Primeiro Testamento aponta um PROJETO de luta para sair de contextos de escravidão e inaugurar contextos de liberdade. Sair de uma terra de escravos e caminhar para uma terra de libertos, em que não haja, politicamente, dominação; não haja, economicamente, exploração; não haja, socialmente, uma divisão entre aqueles que são considerados mais gente e outros menos gente; não haja, eticamente, um cultivo de apatia, de indiferença e de desprezo pelo outro, especialmente se este outro é necessitado de direitos essenciais para sua sobrevivência. O Novo Testamento ou o Segundo Testamento aponta a um PROJETO, conectado com o Primeiro Testamento, em que se superem contextos de morte e se inaugurem contextos de vida. Talvez uma das novidades maiores do Novo Testamento que possa ultrapassar, amplificar e lapidar o PROJETO do Antigo Testamento é o acento ético da dimensão “agápica” na vida social: o amor, enquanto ágape, é um amor amplificador de Eros e Filia. O erotismo (cuidado est-ético em relação a si e ao outro) e a filialidade (amor filial, amizade), por mais importantes que sejam, são insuficientes para uma vida social humana. Necessitamos cultivar eticamente uma vida amorosa (vida agápica) para que todas as pessoas, mesmo aquelas que não gostamos e nunca conheceremos, sejam reconhecidas em sua dignidade humana. Despertar a este amor que ultrapassa fronteiras familiares, fronteiras de amigos próximos, fronteiras nacionais, faz com que a Bíblia nos desperte para um pensamento mais crítico e consciente sobre sociedade, as relações e necessidades humanas.


Elo Diocesano: Que dicas o Sr. deixaria a nossos leitores para familiarizarem-se ainda mais com a Sagrada Escritura?


Prof. Noli: Veja que familiarizar-se tem o sentido de ambientar-se, entrar na casa (acasalar-se). Toda casa tem suas evidências e seus segredos. Consegue notar mais elementos e aspectos de uma casa e, até, fazer a experiência de se surpreender, quem vai muito aberto e liberto neste ambiente para perceber novidades, diferenças, semelhanças. No entanto, para captar ambientes é necessário “in-habitar” neles sem estar dominado por ideias já fixas, no sentido de pré-conceitos. Dito isso, indico “duas dicas” para acasalar-se (familiarizar-se) com a Bíblia: a) Leia a Bíblia sem o pré-conceito de que esta seja “a” Palavra de Deus. Leia o texto para também apreender e compreender aspectos culturais, históricos, sociais, econômicos presentes no texto; b) Procure fazer cursos bíblicos organizados pelas Paróquias, Foranias, Diocese, CEBI e outras entidades de confiança.

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